Crônicas

(Im)Perfeição

Quase toda vez que tento entender ou analisar alguma coisa relativa ao ser humano acabo chegando a um impasse inconclusivo, algo que nenhuma outra expressão além de “Que bicho estranho!” definiria melhor. Até porque eu mesma, e principalmente eu, sou estranha aos meus olhos – e não me classificaria de maneira diferente.

Não existe criatura alguma mais estranha que o ser humano, por vários motivos: 1. Porque pensamos; 2. Porque achamos que pensamos; 3. Ou porque deveríamos pensar.

Acho que o terceiro motivo é o que mais me incomoda.

Não que isto seja muita coisa, porque às vezes até o primeiro motivo não me soluciona muita coisa, e aí me encontro presa no segundo e me jogando de novo no terceiro, como num ciclo irritante e sem fim.

Ou será que só na minha cabeça as coisas funcionam assim?

Digo estranho para não dizer complicado. Complicado é a palavra certa, mas ainda que eu pense que nada mais descreva melhor, usar complicado me parece complicar ainda mais a raça humana.

Pois que seja então estranho o meu eufemismo! Como se houvesse algum problema em assumir complicação, e simplificar a todo custo fosse sempre possível… É mesmo um eufemismo bem infantil, como quase todos o são.

Mas não me basta a infantilidade em querer fugir de toda complicação, porque sei que o brinde é um pacote de medos. E algumas incertezas avulsas acompanhadas de tanta insegurança… Um amontoado de defeitos revestido de carne, osso e pele humana, porque não existe nada mais humano que a imperfeição.

Não escrevo nada disso como um massacre à autoestima, efeito de uma depressão ou qualquer coisa do tipo.

Mas quando não entendo alguma situação ou pessoa, depois de tentar por mais um tempo sem êxito, ou desistir de tentar ao soar o primeiro alerta de complicação, me pergunto se eu seria objeto de fácil compreensão. E, sinceramente? Acho que não.

Há em mim tantas letras trocadas, palavras confundidas, tropeços não intencionados, acordes mal tocados, perguntas sem respostas, outras questões não resolvidas e rascunhos inacabados escondidos… Versos não rimados, sorrisos guardados, prosas que na verdade aspiravam ser a mais fina poesia, vergonha traduzida nas minhas mãos gesticulantes e bochechas coradas, e tantos outros defeitos que não me lembro ou não sei.

Não que sejam propositais, muitas vezes são só inevitáveis; coisas que, a despeito da minha vontade contrária, não caberiam em nenhuma edição.

E é num flash de sanidade que me pergunto o porquê de querer que em minha vida haja uma ferramenta de edição, mas essa resposta eu sei: porque torna-me ainda mais humana o medo de deixar que descubram que sou imperfeita também.

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