Crônicas

Pós-moderno

São tempos tão complexos os atuais. Quando comparados a épocas anteriores quanto ao acesso tecnológico são claramente mais simples, mas acho as questões sociológicas tão mais complicadas.

Primeiro veio a modernidade, e escolho usar o termo em seu sentido de ruptura com o clássico. O projeto moderno pode ser definido como o avanço tecnológico impulsionado pelas buscas que facilitassem a vida, os mecanismos inventados que nos proporcionaram mais tempo de lazer – e ainda que filósofos, arquitetos e artistas em geral tenham, em grande parte, a queda do Muro de Berlim e o fim da URSS como marco inicial para a pós-modernidade, esta mesma busca persiste. Mas não quero falar de História ou de Arte, por mais que eu goste das duas coisas. Gosto mais de pessoas.

Não poucas vezes me pergunto como a vida em sociedade afeta o ser humano. Imagino que haja lugares parados no tempo, em outro contexto, talvez bucólico, fora do que chamamos de globalização (no 1° semestre da faculdade aprendi que a globalização vai muito além do que a Geografia nos mostrou no Ensino Médio, presente desde o surgimento do comércio entre os países e, portanto, irreversível) sem que esta ausência seja pejorativa. Mas não conheço estes lugares, só sei da vida em metrópole – e, no caso de SP, megalópole.

Nem tudo são flores nessa vida de capital. Mas eu gosto, até mesmo porque, como bem disse Caetano, Narciso acha feio o que não é espelho, e o diferente tantas vezes assusta; sendo mais precisa, espanta. Não gosto do ar poluído, nem das intermináveis filas, horas perdidas no transporte público ou excesso de cinza, e ainda não mencionei o trânsito caótico ou a salada mista causada pela falta de um padrão arquitetônico quando minha cidade é vista de algum ponto alto – e este é o motivo de eu querer bater em todo arquiteto que diz não ser o Urbanismo tão importante. Mas gosto das misturas de sotaques, do leque gastronômico, das variadas etnias, histórias e origens; fico encantada com as muitas opções culturais. Desprezo qualquer coisa que me negue as facilidades que São Paulo me traz, o comodismo me impele a isso.

E até onde o comodismo me leva? Esse vício moderno parece não ter fim! É tão grande a vontade de simplificar todas as coisas, que pelo menos eu, muitas vezes, acabo complicando tudo mesmo sem perceber, e principalmente, sem querer. Sempre tentando ao máximo resumir as coisas em busca de mais tempo, tempo ao meu dispor para o que eu bem entender. E o que eu faço com esse tempo livre? Dormir, comer?

Me sinto tão crítica às vezes; primeiramente crítica de mim mesma, e depois de minha própria sociedade. Moro em apartamento há cinco anos, mas sinto falta da minha cachorra, de um quintal e uma árvore para pegar sombra enquanto vejo o sol passar. Ou então digo, penso que sinto. Porque quando penso em como seria a minha própria casa não imagino nem um pequeno jardim, que tanto gosto, ou um quintal grande onde os meus futuros filhos possam brincar, mas sim outro apartamento, quanto menor mais prático de cuidar. E também é mais seguro, sempre ouço alguém dizer; e sempre me pergunto se é mesmo verdade ou uma dessas coisas que a gente diz pra tentar se convencer.

Uma vez fui visitar uma amiga minha que também mora em apartamento, e cumprimentei uma senhora que foi muito simpática comigo; mas quando perguntei à minha amiga quem era, ela não soube me responder. Achei um grande absurdo, até que um dia desses, andando pelo meu próprio condomínio, vi dois rostos de moradores desconhecidos que até então eu nunca tinha visto na vida. Tantas pessoas parecem invisíveis, e também nós o somos. Invisíveis, mas visíveis para 800 pessoas ou mais enquanto acessamos as redes sociais pelos nossos smartphones e não enxergamos nada mais.

Há alguns meses venho tentando ser mais atenta com essas coisas e com as pessoas. Bem cedo de manhã, quando vou para a faculdade, geralmente agradeço ao motorista que tem a bondade de esperar minha pequena e desesperada corrida até o ponto de ônibus e digo ‘Bom dia’ ao cobrador. E não sou uma pessoa das mais extrovertidas, antes de tudo foi um desafio para mim. Nos primeiro dias era muito engraçado, as outras pessoas no ônibus olhavam estranho e os próprios cobradores ficavam desconfiados; mas depois gostaram e se acostumaram, sempre me reconhecem e às vezes até conversam comigo. O que me choca é que agradecer e dizer bom dia é usar o mínimo de educação que minha mãe me deu, então por que tem de parecer uma coisa de outro mundo?

Desaprendemos a nos relacionarmos. E quando penso em pessoas não consigo ver só ganhar muito dinheiro, ter uma boa formação, conquistar várias coisas ou realizar todos os sonhos como a verdadeira razão de nossas existências. Gosto da paz que sinto escrevendo, cantando e viajando, mas acharia ousadia demais pensar que nasci só pra fazer qualquer uma destas coisas. Porque seria muito raso, simples demais, e é justamente este o perigo das coisas: nos acostumamos tão facilmente a criá-las e à sua simplicidade que nos esquecemos que nós mesmos fomos criados. E se esquecemos, ou negamos, que fomos criados, negamos também nossa função. Não poucas vezes uma criação se define pela função que lhe cabe, e assim também nós só através dessa percepção descobrimos o porquê de estarmos aqui.

Mas nem todo ser humano gosta de ser ver como criatura, é a herança iluminista fincada em nossos corações. Essa busca excessiva pela razão, como se a razão fosse algo perfeitamente ao nosso alcance. Falo assim porque eu mesma era (e vez ou outra ainda me pego assim) adepta do vício de querer compreender todas as coisas, até perceber que não consigo e é impossível.

Shakespeare chegou a essa mesma conclusão muito antes de mim, não consigo entender de outra maneira a incapacidade que ele atribuiu à nossa vã filosofia. E, realmente, como é vã a nossa filosofia.

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