Textos

Guarda-Chuvas

Terça-feira passada, pela manhã, resolvi deixar a preguiça de lado. Admito que a preguiça tem sim tomado espaço em meus dias: depois de acordar cedo o semestre todo por causa da faculdade, bastou uma semana de férias para que este hábito fosse por água a baixo. E o que tenho por acordar tarde está entre 8:30 e 9:30 da manhã – no máximo 10:00, que já é luxo. Enfim, deixei a preguiça e as cobertas em um canto para levantar às 7:30, apesar de ainda assim ter abusado da função soneca e só ter levantado mesmo às 7:45.

De todo modo, não foi isso que marcou o meu dia. Mais de uma hora depois, quando eu já estava voltando para casa, vi uma senhorinha usando um guarda-chuva preto. Tenho uma fascinação maluca por guarda-chuvas coloridos e de todo tipo, coisa que nem eu mesma sei entender e quanto mais explicar; e também eu segurava um guarda-chuva preto, mas fechado. E aquela única mulher andava na rua protegida pelo guarda-chuva, ninguém mais.

Parei, olhei o céu e pensei por alguns segundos antes de sair; e ainda que o céu estivesse nublado, não vi motivo para abrir o guarda-chuva e prossegui. Não havia nem andado cinquenta metros quanto senti as primeiras gotas, e apesar do meu fascínio por guarda-chuvas, não abri. “Uma garoinha de nada não faz mal”, pensei, “uma chuvinha pode ser boa afinal”.

Não faz mal, tá. Antes mesmo que eu chegasse em casa, insistindo em manter o guarda-chuva fechado, os espirros já haviam mandado lembrança e a voz já tinha começado a desafinar. Nem o chá quente e o cobertor puderam resolver muita coisa depois disso.

Aí fiquei pensando na vida e nos guarda-chuvas. Há quem diga que o endurecimento de um coração é causado pelo sofrimento e o medo de sofrer, instinto de proteção. Mas não gosto de pensar em corações endurecidos como armas de proteção, prefiro os guarda-chuvas. Os guarda-chuvas até podem ser coloridos, mas um coração duro tira a cor de tudo ao seu redor. Talvez um guarda-chuva, a longo prazo, pudesse devolver a um coração a cor. Eu, pessoalmente, acho que sim.

Mas a chuva parece tão gostosa, em SP o pôr-do-sol é em degradê e gera fotografias colecionáveis, de vários ângulos. A camada de poluição se mistura às outras cores de uma forma tão linda que, pelo menos pra mim, fica fácil esquecer a sua acidez. Talvez a chuva ácida só cause um resfriado, uma gripe. Ou quem sabe algo mais. Sabe-se lá o que mais.

Queria entender o porquê de não bastar a gripe alheia como experiência, mesmo sabendo de casos em que, quando desenvolvida a gripe, tornou-se uma pneumonia das graves. Ou por que alguém que já tenha sofrido tentando curar uma gripe alheia, ou mesmo própria, não usa o guarda-chuva. Nem que seja por medo de pegar resfriado, dor de cabeça, pelos tóxicos ou sei lá. Porque na verdade dói muito. E por mais que a chuva pareça gostosa, não tem como ser melhor que um dia de sol.

Um banho de chuva não vale o preço de um coração duro, magoado, cinza e rabugento. Só sei que eu prefiro os guarda-chuvas.

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