Textos

Pão e muito circo

Pensei em escrever algo que pudesse expressar todas as coisas que passam em minha mente em relação ao Brasil e à política nesse ano, e sinceramente não sei se vou conseguir. Mas vou começar falando da Copa, porque não vejo outro ponto mais tangível para se começar.

Lembro-me de 2007, quando foi anunciado o Brasil como país sede: estava estudando de manhã quando recebi a notícia na escola, todo mundo festejou e eu fui pessimista desde o princípio. E não, eu não gosto de ser pessimista em relação às coisas porque prefiro pensar que estou errada; mas até agora não tive a feliz sensação de ter minhas suspeitas negadas. Simplesmente não entrava, e ainda não entra, na minha cabeça como um país com tantas prioridades e em pleno escândalo do Mensalão pudesse ter cabeça para sequer pensar em sediar uma Copa do mundo – duas observações: A) Alguns comunistas já tentaram me convencer daquela velha lenga-lenga de que o intuito era financiar a aprovação de alguns projetos sociais e blá blá blá… Sério mesmo que tem gente que insiste nisso até hoje? E B) Não sou daquelas pessoas que odeiam o futebol (torço e gosto muito, pra falar a verdade) e o tratam como mera forma de alienação, mas admito que hoje gosto bem menos da FIFA depois de tantos escândalos de corrupção e asneiras que o Joseph Blatter tem dito e feito; e detesto piamente a forma como as coisas foram e continuam sendo feitas.

E é justamente aí que faço a minha primeira objeção. Quando converso sobre a Copa com alguém pergunto por que a mudança de opinião AGORA e não há sete anos; e já ouvi vários argumentos, sendo o pensamento de que os estádios não seriam construídos com dinheiro público o mais compreensível destes. Ainda assim, independentemente de quão cética e desagradável eu possa parecer ao falar isso, foi idealismo e inocência demais acreditar numa coisa dessas. Como acreditar que não sairia dinheiro dos cofres públicos se, mesmo no ambiente privado, há tanto subsídio? E de onde saem os subsídios? Garanto que não são provenientes de nenhum pote de ouro no final do arco-íris.

Por mais que eu concorde com muitas das reivindicações apontadas em Junho do ano passado, quase todas elas também eram super plausíveis há sete anos, e muito me espanta o fato de poucas vozes terem pautado estas questões desde o início. E não, eu não sou simpatizante do Black Bloc ou qualquer coisa semelhante que tenha se infiltrado nos protestos; mas me espanta ainda mais o fato de que, algumas daquelas pessoas que levantaram cartazes pedindo serviços públicos padrão FIFA ou partilhado das mesmas reclamações terem se vendido por tão pouco, pelo preço das figurinhas da Copa, menos de um ano depois. E não vou nem comentar sobre o nome da mascote porque acho que o Fuleco fala por si só. Fuleco! Com um nome desses, só mesmo rindo para não chorar.

Ainda não falei sobre os índices de exploração infantil, o turismo sexual que grande parte da população nem sabe que existe e é promovido internacionalmente (e com o conhecimento e consentimento do governo sim, pasmem), as construções polêmicas envolvendo os seus roubos e acidentes, os boatos e a violência, as greves do transporte público, o aumento dos preços até nos supermercados, a entrega do Exército nas mãos da FIFA , as vias interditadas e o caos que se instalou nas cidades-sede – falo por São Paulo, onde moro e conheço, e apenas imagino que nas outras cidades as coisas não sejam muito diferentes. E por que quase ninguém fala dos moradores de rua desaparecidos e das favelas que, acidentalmente, foram destruídas?

Outra coisa que me irrita em meio a tudo isso é o complexo de vira-lata, descrito há muitos anos por Nelson Rodrigues, botando as garras, o latido e tudo o mais de fora. Complexo de vira-lata por achar que não temos mais nada além de futebol ou carnaval e ainda comemorar isso, por deixar que um cara sem a menor ética profissional fale as maiores idiotices grosseiras sobre o país que tão prontamente lhe abriu as portas e também, principalmente, por permitir que os gringos nos tratem como um povo e uma terra onde tudo é permitido; um lugar onde possam fazer tudo aquilo que não fazem em seus próprios lares. Desde os tempos de colonização as mulheres ameríndias eram já eram vistas de maneira vulgarizada, vistas como uma aventura em terras longínquas antes que os colonizadores voltassem para suas casas e se casassem com mulheres socialmente aceitas em suas metrópoles; e ainda hoje há a generalização ridícula de que no Brasil só tem vadias e a associação da mulher brasileira ao sexo fácil (dá pra conferir isso aqui e aqui). Esse tipo de zoeira tem limite sim, e ele já acabou faz tempo.

Assisti a vários jornais semana passada, e o aniversário de Junho de 2013 estava sempre em pauta. Eu pessoalmente acho que, mais importante que as próprias manifestações devem ser as mudanças de pensamento pós Junho – vale lembrar que, um ano depois, nem metade das questões levantadas foram consideradas. Não é preciso ser de direita ou esquerda para perceber que é ridículo determinado partido se manter no poder aterrorizando uma mudança política, que é necessária, tendo como base um único projeto social que pode ser, inclusive, analisado como compra de voto e deturpação da democracia quando visto sob essa óptica.

E nessa política do pão e circo contemporânea, nós é que estamos sendo feitos de palhaços.

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